Dar-se alta
Martha Medeiros
Foi uma delícia ver Woody Allen jogar a toalha, reconhecer que a busca pelo sentido da vida é uma tarefa cansativa e infrutífera.
Nada como não ter grandes esperanças para também não ter grandes frustrações. Todos diziam que o novo filme do Woody Allen era fraco e repetitivo, mas sempre acreditei que um fraco Woody Allen ainda é melhor do que muita coisa considerada boa por aí. Então lá fui eu para o cinema conferir Igual a Tudo na Vida e, não sei se devido à baixa expectativa ou se ao meu entusiasmo incondicional pelo cineasta, saí mais do que satisfeita: não considerei o filme fraco coisa nenhuma.
Fraco achei o ator protagonista. Inexpressivo. Quase comprometedor. Fora isso, foi uma delícia ver Woody Allen jogar a toalha, reconhecer que a busca pelo sentido da vida é uma tarefa cansativa e infrutífera e que todo mundo vive a mesmas angústias, do intelectual ao motorista de táxi. Extra, extra! Woody Allen se deu alta.
É verdade que Igual a Tudo na Vida remete a situações já mostradas em seus outros filmes, mas era este mesmo o propósito. Woody Allen faz o papel de um escritor veterano que dá dicas para um escritor amador, que não passa dele mesmo, anos antes. Não foi preciso escalar para o papel alguém com semelhanças físicas e os mesmos trejeitos: a angústia existencial do jovem Falk basta para identificá-lo como um Woody Allen Junior em busca de libertação. E o que é libertação? Fala o veterano: “Quando alguém lhe der um conselho, você diga que é uma excelente ideia, mas depois faça apenas o que quiser”. Tem lógica. Quem é que pode saber o que se passa dentro de nós? Não compensa preservar relações por causa de culpa, ficar imobilizado, temer consequências. Vá lá e faça o que tem que ser feito. Sozinho. Porque é sozinho que estamos todos, afinal.
Ou seja, nada que Woody Allen já não venha há anos discutindo em sua obra, mas agora tudo me parece mais leve e menos intelectualizado, até o restaurante que Allen costuma usar como locação mudou, sai o abafado Elaine’s, entra o arejado Isabella’s.
É claro que os filmes da fase neura eram mais ricos, é claro que uma vida de questionamentos tem mais consistência do que uma vida resignada, e é claro que o Elaine’s tem alma e o Isabella’s não. Mas a passagem dos anos e a proximidade da morte reduz bastante este orgulho que temos em ser profundos e diferenciados.
Todas as criaturas do mundo estão no mesmo barco procurando amor, sexo, reconhecimento, segurança, justiça e liberdade. Algumas coisas iremos conquistar e outras não, e pouco adianta deitar falação porque seremos pra sempre assim: sonhadores, atrapalhados e contraditórios. Jamais teremos domínio sobre os acontecimentos. A sutil diferença é que, se em seus filmes anteriores Woody Allen parecia dizer “não há cura”, agora ele parece dizer “não há doença”.
Eis a compreensão da natureza humana, acrescentada por uma visão bem-humorada e madura do que nos foi tocado viver. Leva-se tempo para aprender a não dramatizar demais as situações.
Dar-se alta é reconhecer, com alivio, que o que parecia doença era apenas uma ansiedade natural diante do desconhecido. Só quando a gente percebe que o desconhecido permanecerá para sempre desconhecido é que a gente relaxa.
Domingo, 22 de agosto de 2004.
Desenvolvido por Carlos Daniel de Lima Soares.